Mar de lama

morelPor Morel

Há trinta dias o Senado afunda em si mesmo.

Após 1994, durante o governo Fernando Henrique, o Senado Federal passou por um processo de rejuvenescimento; na época os analistas políticos previam uma efervescência nos debates e um papel mais dinâmico para a casa, até então tida como um repouso de políticos veteranos, uma espécie de sub-sede da Academia Brasileira de Letras. Não deu outra.

Com a entrada dos jovens senadores, veio junto a popularização da TV Senado e os discursos começaram quentes e inflamados, até nos dias em que a plenária estava vazia. De vez em quando havia umas disputas regionais e trocas de acusações entre as excelências. Vale lembrar também que as nossas oligarquias tiveram suas desarticulações políticas às vésperas do Lula se tornar presidente.

Fernando Henrique sempre respeitou a todos, mas sua política era sofisticada e simples: vocês podem tudo, menos derrubar o Presidente e seu grupo. Podem ser gulosos, podem se arriscar em negócios, mas não podem tentar inviabilizar a estratégia paulista de sucessão presidencial. Todos que tentaram tiveram sérios problemas.

Quando Lula assumiu em 2003, o Senado passou a desempenhar dois papéis centrais: elevar o debate político em todas as pautas e anular os questionamentos sobre a sua governabilidade.

Os estrategistas do Presidente repetiram pelos gabinetes a mesma postura do antecessor: vocês podem tudo, menos derrubar o Presidente e sua reeleição.

As oligarquias regionais entenderam o recado, se rearticularam com os novos companheiros e agora realmente acham que podem tudo, aliás levam isso ao pé da letra.

O escândalo sobre os abusos das benesses com o dinheiro público estourou hoje, mas os abusos em si já vinham acontecendo há dezoito anos com tranqüilidade.

Mar de lama – Os atores

Os responsáveis pela crise são os políticos, tecnocratas cumprem ordens.

Não pretendo falar sobre os tecnocratas nomeados ou concursados, todos estes tem capacidades ímpares para trabalhar ou para legalizar o roubo do dinheiro público, nunca é demais afirmar que a riqueza intelectual dos funcionários e técnicos legislativos brasileiros não fica nada a dever aos seus congêneres nas democracias mais avançados do mundo.  Deixo a grande imprensa falar dos espertos em Brasília, o que vem fazendo com maestria, além disso eles têm uns nomes esquisitos e inexplicáveis. Também sabemos que um sujeito desse naipe é “apadrinhado” e protegido para que alguém fique de mãos limpas, nos escândalos atuais é preciso sim separar o joio do trigo.

Na última quinzena assistimos pela TV políticos com um histórico democrata acusando-se na Tribuna e sendo acusados pela imprensa. Outros poucos se escondendo da imprensa. Uma decepção só.

Sarney começou a vida delimitando terras para regularizações agrárias, fazendo levantamentos de campo até em aviões. Daí para frente virou político, ficou rico e nunca terminava o que começava, mas sempre começava bem. Foi o Presidente que afirmou a democracia por decreto, trouxe de volta à legalidade os partidos políticos mais antigos da história brasileira – os partidos comunistas, gostava de articular intelectuais e artistas no seu governo, garantiu a repactuação política brasileira, promulgou a Constituição de 1988, terminou a transição dos governos militares para os governos civis. Já foi acusado de tudo, até do que não fez. Ao invés de ir para casa, voltou para o Senado.

Arthur Vírgílio é um sujeito determinado, retórica boa, articulada, seus oponentes têm a sua inteligência astuta como desafio. É lutador de Jiu Jitsu, não se intimida nem quando erra e muito menos foge de ameaças ou chantagens; sabe como poucos bater sem sangrar. Político experiente, ocuparia qualquer cargo executivo ou ministerial, mas voltou para o Senado.

Cristovam Buarque é a gentileza em pessoa, sempre afável e portador de uma boa idéia. Foi governador em Brasília. Sempre respeitou a lei, só demonstrou incompetência nas disputas ministeriais do governo Lula – poderia ter superado a gestão do ex-ministro da educação Paulo Renato, mas não conseguiu. Poderia ter convocado a sociedade para fazer o analfabetismo zero, mas lamentavelmente se dispersou e voltou para o Senado.

Com as denúncias de usos particulares dos instrumentos parlamentares já estampadas em todos as capas dos jornais, Sarney abriu a cena na TV para responder. A expectativa da população em torno dele era tão alta quanto o despreparo de sua assessoria, foram duas forças energéticas antagônicas, que o deixou completamente aturdido. Qualquer pessoa esclarecida esperava uma resposta ou uma atitude condizente com a estatura do Presidente. Não precisava discursar muito, bastava um gesto concreto e corajoso como ele já havia tomado antes em sua biografia, por exemplo, quando ele assinou a ficha de filiação ao PMDB isolando de vez os arenistas e seus linhas duras pouco antes de assumir a Presidência da República.

Em seguida vem o Senador Cristovam Buarque com um discurso moderado pedindo providências administrativas, depois o Senador Arthur Virgílio com um discurso mais focado, crítico, mas sempre deixando margem para a Presidência do Senado manobrar. Tiveram suas respostas pela imprensa, foram achacados ou chantageados por um funcionário.

Acabaram assumindo os seus pecados e não permitiram que um tecnocrata chantageasse um senador da república.

A resposta política deram na Tribuna: FORA SARNEY!

Para finalizar as decepções só falta o PT começar a falar.

“O cara” é um ás

Lula dá a volta nos adversários e nos aliados também.

A véspera da eleição de 2006 conversando com alguns amigos comentei que Sarney e Renan Calheiros seriam fatores de governabilidade para Lula e Collor iria se eleger com apoio do Lula. Todos riram e acharam um exagero meu, respondi apenas que aguardassem as eleições.

Hoje, quem diria, Lula defende Sarney e Collor defende Lula.

E “o cara” continua liderando as pesquisas de opinião.

Péssimas coincidências

Bastou Álvaro Lins ser solto que voltaram a acontecer atentados na porta das casas dos ex-chefes de polícia do Rio de Janeiro.

Só falta agora os seguranças do governador voltarem a ser assaltados.

13 Respostas para “Mar de lama

  1. Rodrigo Koblitz

    Caro Morel, fico feliz de voce estar apresentando esse debate para sociedade desse modo.
    Gostaria de saber se haverá espaço para discussões ambientais no seu Blog.
    Planejamento da ocupação da Amazonia é o tema que vejo mais relevante. Acredite, mas em poucos anos teremos praticamente todos os grandes tributários da amazonia barrados por hidrelétricas. Esse tema exige refelxão de muitos diferentes atores da sociedade.
    Grande abraço meu amigo,
    Koblitz

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    • Ouvi falar de seus posicionamentos éticos diante da pressão dos superiores e seu espírito público nos relatórios ambientais do IBAMA.
      Tê-lo como leitor e debatedor sincero é uma honra para mim.
      Sua proposta de pauta está anotada.
      Obrigado Rodrigo.

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  2. Valeu Morel!!! Mete bala!!!

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  3. Dayse Alvarenga

    Parabéns, MM por tudo: conteúdo e formato do blog. Ao ler seu texto era como se tivesse ouvido você falar, ou seja, de maneira contundente e fácil de analisar os fatos.

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    • Ainda estou aprendendo a usar esta ferramenta, só depois de uma semana consegui usar a senha e editar os comentários.
      Me ensinaram que deveria escrever como falo e penso, meus advogados vão sair da letargia.
      Obrigado Dayse.

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  4. Querido amigo,
    parabéns pelo blog. Já coloquei nos favoritos para poder acompanhar.
    seus comentários são ótimos, precisos, certeiros e muito atuais…é muito bom ver você na ativa, com sua lingua critica, espanando a poeira dessa arena política e desvelando realidades esquecidas…que tal analisar as ações do MMA….adoraria lê-las…
    Beijos na alma e outro no coração.
    Lara

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    • Antes mesmo de receber o convite para escrever o Blog estava conversando com minha esposa e ela defendendo o Ministro Carlos Minc, já estava acertado que eu iria escrever um texto mostrando o fogo que ele estava recebendo. O Ministério do Meio Ambiente evoluiu pouco, basta olhar os aportes orçamentários, o que cresceu foi a capacidade do Ministro titular em saber se pautar diante da agenda política nacional sem abaixar a cabeça em um governo de coalização.
      Mas como você citou existem várias ações algumas até heróicas por parte dos funcionários. Também acho que mereçam um registro só não sei se estou a altura, mas tentaremos.
      Obrigado Lara

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  5. Alô, Marcelo !
    Parabéns pelo blog.
    Hoje no Globo, há uma crônica do Dapieve, que na “saideira” comenta que nos primórdios as informações eram transmitidas em torno de uma fogueira. A população cresceu,
    não há mais espaço para tantas pessoas em torno de uma fogueira e por isso surgiu a alternativa do LIVRO , que hoje graças à Internet está ampliada para os BLOGS.
    Sucesso. Boa Sorte. Saudações, Abrasil.

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  6. Pingback: Blog do Desemprego Zero » Blog Archive » Mar de Lama no Senado

  7. já postei !!! não tá aparecendo!!! bjs

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    • Marcelo Morel

      Eu atualizo sempre as segundas feiras pela manhã, istoé quando não falta luz, computador engasgando…
      E acesso apenas eventualmente, realmente não sou on line, por isso a demora em responder aos comentários.
      Este blog é um projeto tocado a quatro cérebros e um teclado, adivinha qual a minha parte?

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